Sempre fôra água: fluidez, movimento, emoções. Acostumada a ser água, sempre se deixara ir. Nessas de ir, nunca se fixara em si.
Recentemente, fez-se terra: contato, raiz, permanência interior. O contato com o chão de terra socada avermelhada moveu seu sangue e, enfim, pôde ver-se, sentir-se, saber-se. Brotou das rachaduras bela-bruta flor de sorrir; subiu pó no ar com o vento para alegriar-se; pulsou e deixou pulsar, levando, na batida cadenciada, para dentro de si, cores que os olhos nunca antes notaram; fincou-se em si, como âncora, absorvendo a plenitude e a totalidade de ser.
Em ser terra, lambrecou-se de vida, sujou os pés de fé e, ao respirar, deixou que os terremotos das mudanças internas fizessem ruir o muro que não permitia aproximações: de repente, viu-se cercada de calor, de luz. Em ser raiz, teceu-se em paz com Deus, com a vida, consigo mesma; entrelaçou-se em novos olhares, novos sentires, novas percepções; deixou que os seres se emaranhassem e não os afastou. Em ser chão, viu-se fecunda, pronta a receber. Não desperdiçou as tantas águas, semeou-se de amor e regou-se. Flor e ser, florescer. Crer e ser, crescer. Ser e ser, ser-se

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